Não, Olavo: a água também não é plana

O Odalisco não consegue ficar sem passar vergonha. Agora a mais nova é de que a “teoria” da Terra Plana não foi cientificamente refutada. Ele só quer causar e despistar suas reais intenções, como sempre.

A sugestão do filósofo autodidata foi refutada ainda no século 19 por Wallace, o “padrasto” da seleção natural. Entenda com ajuda do método científico.

Por Bruno Vaiano – 31 maio 2019, 15h22
Via Super Interessante :

Tudo começou nesta quarta-feira, 29 de maio, quando Olavo de Carvalho escreveu o seguinte no Twitter: “Não estudei o assunto da terra plana. Só assisti a uns vídeos de experimentos que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute.”

Olavo foi taxado imediatamente de terraplanista, mas refutou o rótulo com um argumento sensato: “Na minha profunda miséria intelectual, para eu saltar desses experimentos para a teoria geral da terra plana eu precisaria de muitos meses de observações e comparações.” 

Felizmente para o Olavo, ele está no mínimo um século atrasado: muita gente já fez as necessárias “observações e comparações” – tanto sobre a hipótese mais restrita da água plana quanto sobre a hipótese mais abrangente da Terra plana.

Tudo começou no século 19, em um trecho de 9,7 km de um rio retificado artificalmente, localizado no condado de Cambridgeshire, ao norte de Londres, na Inglaterra. Em 1838, Samuel Rowbotham – uma personalidade terraplanista da época, que largou a escola aos nove anos e atendia pelo pseudônimo “Paralaxe” – afirmou que havia comprovado a planicidade das superfícies aquáticas em um experimento realizado por lá.

O experimento consistia em observar um barco se afastar de um observador localizado em uma ponte em uma das extremidades do trecho reto de 9,7 km. Se a Terra de fato fosse curva, Rowbotham hipotetizou que, conforme o barco se afastasse rio abaixo, ele o veria desaparecer atrás da linha do horizonte. O barco não desapareceu, e Rowbotham concluiu assim que o planeta era plano. Veja a ilustração de seu livro abaixo:

 (“Earth not a globe”, de Samuel Birley Rowbotham/Domínio Público)

Mas a história não acaba por aqui. Entra em campo Alfred Russel Wallace, um naturalista que compartilha com Darwin o crédito pelo conceito de evolução por seleção natural (entenda neste texto a história dessa atribuição compartilhada). Ele se envolveu no assunto graças a uma aposta, que daria 500 libras a quem provasse o contrário – que a superfície da água, assim como a Terra, tinha curvatura. Apostas científicas eram comuns entre os aristocratas da época, como ilustra o livro a Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne.

Wallace percebeu que o experimento de Rowbotham não levava em consideração o fenômeno óptico bem-estabelecido da refração da luz pela atmosfera, que curva os raios e faz que objetos razoavelmente distantes pareçam estar mais acima da linha do horizonte do que realmente estão. Isso ocorre com o Sol todos os dias, como você pode ver no esquema abaixo.

 Fonte: Francisco Javier Blanco González/Wikimedia Commons

Fonte: Francisco Javier Blanco González/Wikimedia Commons (/)

Wallace, então, fez algo diferente: espetou postes ao longo de todo comprimento do rio, para que os localizados mais ao fundo se revelassem mais baixos que os localizados mais à frente quando vistos de uma luneta – e fez as contas para descobrir qual seria a distorção exata causada pelo fenômeno da refração nas medições.

Ou seja: desde daquela época, Rowbotham está refutado – por Wallace, e por muitos outros experimentos realizados desde então.

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